Análise da Paisagem

Aula 07 - Cartografia Temática e Leitura Integrada da Paisagem
Curso de Geografia

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

2026-03-18

Visão Geral da Aula

Tópicos

  • 1 Cartografia temática: o que é e para que serve
  • 2 Tipos de mapas temáticos para análise da paisagem
  • 3 Leitura de mapas: relevo, drenagem e geomorfologia
  • 4 Leitura de mapas: uso e cobertura da terra
  • 5 Leitura integrada: cruzar informações espaciais
  • 6 Bases públicas de dados espaciais

Objetivo da Aula

Desenvolver a capacidade de leitura e interpretação de mapas temáticos (relevo, drenagem, uso/cobertura, redes) como ferramenta para a análise integrada da paisagem e a delimitação de unidades territoriais.

1 - CARTOGRAFIA TEMÁTICA

O que é cartografia temática?

Definição

A cartografia temática representa informações específicas sobre um tema geográfico em base cartográfica:

  • Mapa de relevo - altimetria, declividade, hipsometria
  • Mapa geológico/geomorfológico - tipos de rocha, formas de relevo
  • Mapa de solos - classes pedológicas
  • Mapa de uso e cobertura - vegetação, agricultura, urbano
  • Mapa de drenagem - rede hidrográfica, bacias
  • Mapa de vulnerabilidade - combinação de temas

Diferença da cartografia de referência

A cartografia de referência (topográfica) mostra elementos básicos (estradas, cidades, relevo). A temática destaca um aspecto específico para análise.

Para que serve na análise da paisagem?

  1. Identificar padrões - distribuição espacial de coberturas, formas, usos
  2. Delimitar unidades - áreas homogêneas ou com dinâmica similar
  3. Cruzar informações - sobrepor camadas para identificar relações
  4. Comunicar - síntese visual para diagnóstico e planejamento
  5. Monitorar - comparar mapas de datas diferentes (mudanças)

Princípio fundamental

“O mapa temático não é fim em si - é ferramenta de leitura. A análise está na interpretação, não na cartografia.”

Mapas bonitos com interpretação superficial → mau trabalho. Mapas simples com interpretação fundamentada → bom trabalho.

2 - TIPOS DE MAPAS PARA ANÁLISE DA PAISAGEM

Mapa hipsométrico e de declividade

Mapa hipsométrico

  • Representa a altitude por classes de cor (faixas altitudinais)
  • Permite identificar: planaltos, vales, escarpas, depressões
  • Base: Modelo Digital de Elevação (MDE) - SRTM 30 m, ALOS 12,5 m

Mapa de declividade

  • Representa o gradiente de inclinação do terreno
  • Classes comuns: 0-3% (plano), 3-8% (suave-ondulado), 8-20% (ondulado), 20-45% (forte-ondulado), >45% (montanhoso/escarpado)
  • Fundamental para: aptidão agrícola, risco de erosão, restrição à ocupação

O que ler nesses mapas (para paisagem)?

  1. Posição topográfica - topos, vertentes, fundos de vale → unidades de paisagem diferentes
  2. Dissecação - relevo muito dissecado = paisagem fragmentada naturalmente
  3. Declividade e uso - áreas íngremes com pastagem = risco de erosão
  4. Contraste - planícies extensas vs. áreas acidentadas → diversidade paisagística
  5. Controle estrutural - alinhamentos de serra, vales encaixados → geologia

Fontes públicas

  • TOPODATA (INPE) - MDE 30 m do Brasil
  • SRTM (NASA) - MDE 30 m global
  • ALOS PALSAR (JAXA) - MDE 12,5 m
  • MapBiomas Alerta - integra com relevo

Mapa de drenagem e bacias hidrográficas

Rede de drenagem

  • Representação dos cursos d’água (rios, córregos, nascentes)
  • Permite identificar: padrão de drenagem, hierarquia (Strahler), densidade
  • Relação direta com relevo, geologia e clima

Padrões de drenagem

Padrão Indicação
Dendrítico Rochas homogêneas, resistência uniforme
Treliça Controle estrutural, rochas com diferentes resistências
Paralelo Declividade uniforme, controle estrutural
Radial Estrutura dômica ou vulcânica
Anelar Domo ou estrutura circular

O que ler (para paisagem)?

  1. Densidade de drenagem - alta densidade = solos impermeáveis/rasos → escoamento superficial dominante
  2. Hierarquia - rios de 1ª ordem (nascentes) → gestão de APPs
  3. Padrão - indica controle geológico/estrutural
  4. Confluências - pontos de acumulação de fluxo → vulnerabilidade a inundação
  5. Intermitência - rios intermitentes (semiárido) → padrão sazonal da paisagem

Bacia hidrográfica como unidade de análise

A bacia hidrográfica é frequentemente usada como recorte territorial para análise da paisagem:

  • Limites naturais (divisores de água)
  • Integra fluxos hídricos e sedimentares
  • Unidade legal de gestão (Política de Recursos Hídricos)

Mapa de uso e cobertura da terra

O mapa mais usado na análise da paisagem

Classifica cada porção do território por sua cobertura (vegetação, água, solo exposto) e uso (agrícola, urbano, industrial):

Classe Tipo
Floresta / vegetação nativa densa Cobertura natural
Vegetação secundária / capoeira Cobertura em regeneração
Pastagem Uso agropecuário
Agricultura anual / perene Uso agrícola
Área urbana Uso antrópico
Solo exposto Degradação / preparo
Corpo d’água Natural / artificial
Mineração Uso extrativo

Fontes públicas

Fonte Resolução Cobertura
MapBiomas 30 m Brasil, 1985-2023
PRODES (INPE) 30 m Amazônia, Cerrado
TerraClass 30 m Amazônia
ESA WorldCover 10 m Global
Dynamic World (Google) 10 m Global, anual
IBGE Variável Censos agropecuários

Importância

O mapa de uso/cobertura é a base para:

  • Identificar matriz, manchas e corredores
  • Calcular métricas de fragmentação
  • Detectar mudanças temporais
  • Elaborar o dossiê da paisagem

3 - LEITURA INTEGRADA

Cruzar camadas: o poder da sobreposição

Princípio

A leitura integrada consiste em sobrepor mapas temáticos para identificar relações que não são visíveis em um mapa isolado:

Sobreposição O que revela
Declividade + uso Pastagem em área íngreme → risco de erosão
Drenagem + cobertura Nascentes sem mata ciliar → APP violada
Relevo + fragmentação Fragmentos restritos a topos → relictos
Uso + solo Agricultura em solo raso → baixa aptidão
Estradas + habitat Rodovias cortando fragmentos → barreira

Métodos de cruzamento

  1. Visual - sobreposição em GIS, leitura comparativa
  2. Álgebra de mapas - combinação raster (ex.: mapa de aptidão = solo + declividade + clima)
  3. Carta de síntese - produto que integra múltiplas variáveis em unidades interpretadas (carta geoambiental)
  4. Perfil geoambiental - corte transversal mostrando relações vertical-horizontais

Atenção

Cruzar mapas sem interpretação produz apenas colagens. O geógrafo/analista precisa interpretar as relações - a tecnologia não substitui o raciocínio.

“SIG é ferramenta. A análise é do geógrafo.”

4 - BASES PÚBLICAS DE DADOS ESPACIAIS

Principais bases para o Brasil

Base Dado URL
MapBiomas Uso/cobertura 1985-2023, 30 m mapbiomas.org
TOPODATA MDE, declividade, 30 m topodata.inpe.br
IBGE Bases cartográficas, censos, malha ibge.gov.br/geociencias
ANA Bacias, hidrografia, outorgas snirh.gov.br
CAR (SICAR) Cadastro Ambiental Rural car.gov.br
ICMBio Unidades de conservação icmbio.gov.br
CPRM Geologia, hidrogeologia geosgb.cprm.gov.br
EMBRAPA Solos, aptidão agrícola embrapa.br/solos

Plataformas em nuvem

Plataforma Capacidade
Google Earth Engine Processamento de imagens em escala planetária
MapBiomas Plataforma Visualização interativa de séries temporais
INPE TerraBrasilis Monitoramento de desmatamento
Copernicus Browser Imagens Sentinel gratuitas
Planet NICFI Imagens de alta resolução (tropical)

Dica operacional

Para o dossiê da disciplina, as bases mínimas são:

  1. MDE (relevo/declividade)
  2. MapBiomas (uso/cobertura)
  3. Hidrografia (ANA ou derivada do MDE)
  4. Limites administrativos (IBGE)

Atividade prática: leitura cartográfica

Proposta (em duplas, 30 min)

Utilizando projeção/tela com acesso ao MapBiomas e ao Google Earth:

  1. Selecione o município de Feira de Santana (ou entorno definido pelo professor)
  2. Identifique no mapa de uso/cobertura (2023):
    • A matriz dominante
    • Pelo menos 5 manchas de vegetação nativa
    • Corredores (matas ciliares visíveis?)
  3. Compare com o mapa de relevo (TOPODATA):
    • Onde a vegetação nativa se concentra? (topos, encostas, fundos de vale?)
    • A declividade influencia a distribuição do uso?
  4. Elabore um parágrafo de síntese descritiva (texto + sketch)

Socialização (15 min)

Objetivo

  • Praticar a leitura cartográfica orientada à análise da paisagem
  • Conectar relevo e uso numa mesma interpretação
  • Iniciar a caracterização da área de estudo do dossiê
  • Familiarizar-se com bases públicas

Este exercício será aprofundado na Aula 08 com a delimitação formal da área de estudo.

Síntese da Aula 07

O que vimos hoje

  1. Cartografia temática - ferramenta para representar e interpretar temas geográficos
  2. Tipos de mapas - hipsométrico, declividade, drenagem, uso/cobertura, geomorfológico
  3. Leitura de relevo - posição topográfica, dissecação, declividade e aptidão
  4. Leitura de drenagem - padrões, hierarquia, densidade, bacia como unidade
  5. Leitura de uso/cobertura - base para análise de matriz-mancha-corredor
  6. Leitura integrada - cruzamento de camadas para identificar relações
  7. Bases públicas - MapBiomas, TOPODATA, ANA, IBGE, GEE, SICAR

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Análise da Paisagem - Aula 07